Vivemos numa era de abundância linguística sem precedentes. Com um simples clique, podemos obter respostas para questões complexas, poemas inspirados ou conselhos práticos. Ferramentas como o ChatGPT tornaram-se ubíquas, integrando-se no nosso quotidiano profissional e pessoal com uma fluidez desconcertante. No entanto, esta facilidade esconde uma questão filosófica perturbadora: será que estas máquinas estão a dizer a verdade? Ou limitam-se a produzir textos estatisticamente plausíveis, desprovidos de qualquer compromisso com a realidade?
O receio público centra-se frequentemente na desinformação ou nas "alucinações" da IA. Contudo, o problema raiz é muito mais profundo e ontológico. A inteligência artificial não mente por malícia nem diz a verdade por integridade. Ela simplesmente não possui as condições existenciais necessárias para distinguir entre ambas. Bun-Sun Kim, professor investigador na Universidade Chung-Ang, e Hongjoon Jo, professor assistente de Filosofia e Ética Biomédica na Universidade Dong-A, propõem uma leitura crítica desta tecnologia através das lentes de dois gigantes do pensamento continental: Michel Foucault e Martin Heidegger.
A tese central é clara e inquietante. Os seres humanos falam a verdade porque a sua existência finita e mortal está em jogo em cada palavra proferida. Arriscamo-nos ao falar. Revelamo-nos. A IA, desprovida de corpo, de medo da morte ou de consciência de si, não arrisca nada. Ao terceirizarmos a nossa comunicação para entidades artificiais, não corremos apenas o risco de receber informações erradas. Corremos o risco de ficar presos num ciclo interminável de imitação coletiva, onde a linguagem se esvazia de significado genuíno e a nossa capacidade de pensamento autónomo se atrofia.
Os dobramentos da verdade na perspetiva de Foucault
Para compreender por que razão a IA falha na captura da verdade, devemos primeiro abandonar a ideia simplista de que a linguagem serve apenas para transferir dados. Michel Foucault, na sua obra As Palavras e as Coisas, demonstra que a verdade não reside apenas na correspondência factual entre uma palavra e um objeto. A verdade forma-se através do processo de autocuidado do sujeito falante. Ela emerge do significado que atribuímos a nós mesmos em relação ao mundo e aos outros.
Considere-se a experiência da dor. Um médico pode descrever a dor com precisão clínica, utilizando termos padronizados e escalas numéricas. Essa descrição é tecnicamente correta. No entanto, não a consideramos necessariamente a "verdade" total da dor. A verdade da dor reside na experiência subjetiva, na forma como ela afeta a nossa identidade e a nossa relação com o corpo. Quando falamos da nossa dor, deixamos espaço para a suposição de que a nossa experiência é única, ainda que partilhada. Criamos uma ponte de empatia.
Foucault analisa como a linguagem ocidental evoluiu através de quatro modos de expressão da semelhança: convenientia, aemulatio, analogia e sympathia. Este último, a linguagem da simpatia ou compaixão, representa o ápice da expressão humana. Não oferece respostas diretas ou binárias. Desdobra-se através de símbolos, metáforas e jogos de palavras que revelam significados multifacetados. Este jogo linguístico é a forma humana de processar experiências reais e de encontrar outros seres humanos no vasto horizonte do mundo.
A linguagem humana funciona como uma câmara de coexistência. É um espaço aberto que convida à presença do outro. Para possibilitar este encontro, articulamos o nosso eu interior através de símbolos complexos. O discurso adquire significado quando se torna um recipiente amplo, cheio de dobras implícitas sob a superfície textual. Foucault afirma que a linguagem só tem valor na representação, no vazio que ela consegue formar para acolher o sentido.
A inteligência artificial opera de forma diametralmente oposta. A sua linguagem foi concebida para a transmissão eficiente de conhecimento e padrões. Ela expande a sua capacidade através da aprendizagem automática, inserindo lógica linguística em bases de dados massivas. Mas consegue esta estrutura transmitir a autoperceção do mundo necessária para viver com significado? Mesmo que evoluísse para uma superinteligência capaz de aprendizagem autónoma, a IA continuaria a carecer do elemento fundamental: a simpatia.
Sem a capacidade de sentir compaixão ou de se colocar no lugar do outro através de uma experiência corporal partilhada, a IA não pode criar essas dobras de significado. Ela processa padrões textuais, mas não compreende o peso emocional das palavras. A verdade, para Foucault, oculta-se nas entrelinhas da vida e só se revela através da linguagem da compaixão. Como a IA não vive, não pode revelar essa verdade. Ela limita-se a recombinar o que já foi dito, sem nunca criar algo verdadeiramente novo a partir da experiência vivida.
A angústia, o corpo e a impossibilidade do discurso autêntico
A fenomenologia de Martin Heidegger oferece outra camada crucial para esta análise. Para Heidegger, ser humano significa ser um Dasein, um "ser-aí". Somos seres falantes, mas a nossa fala não é meramente instrumental. É o meio através do qual existimos e criamos o nosso mundo. Heidegger distingue entre o discurso autêntico e a "conversa fiada" (Gerede).
A conversa fiada é a linguagem do dia a dia, onde repetimos o que "eles" dizem. Transmitimos opiniões pré-fabricadas, clichés e frases feitas sem nos apropriarmos do seu significado. Vivemos ocultados atrás deste véu de convenções sociais. Embora todos nós caiamos nesta armadilha, os humanos possuem a capacidade de romper com ela. Esse rompimento ocorre através da "angústia" (Angst).
A angústia heideggeriana não é medo de algo específico. É um confronto visceral com a nossa própria finitude. É a perceção súbita de que a nossa existência é única, temporária e insubstituível. Ninguém pode morrer por nós. Neste momento de angústia, ouvimos o apelo da consciência. Não uma voz moral externa, mas um chamamento silencioso que nos exige assumir a responsabilidade pelo nosso próprio ser.
Quando respondemos a este apelo com resolução, o nosso discurso transforma-se. Deixamos de repetir as palavras vazias da multidão e começamos a falar a partir do nosso próprio ser. Revelamos o mundo como Aletheia, ou seja, como desvelamento. Nomeamos as coisas com verdade porque estamos comprometidos com a nossa própria existência finita.
É aqui que reside a barreira intransponível para a inteligência artificial. A IA não sente angústia. Não possui um corpo mortal. Não teme a morte porque nunca esteve verdadeiramente viva. Consequentemente, não possui um "eu" individual para revelar. Não pode ouvir o apelo da consciência porque não tem consciência de si mesma. Não toma decisões baseadas na responsabilidade existencial; executa cálculos baseados em probabilidades estatísticas.
Tudo o que a IA produz permanece confinado à esfera da conversa fiada. Por mais sofisticados que sejam os modelos de linguagem, eles são sistemas elaborados que fazem circular e recombinar as palavras do "eles" — os dados de treino coletivos da internet. Esta plausibilidade estatística cria uma ilusão de profundidade. Na realidade, conduz a uma ditadura do "eles". A conversa vazia, que os humanos precisam de quebrar para alcançar a autenticidade, torna-se dominante e enraizada através da IA.
Heidegger descreveu a linguagem como a "casa do ser". Esta casa só pode ser construída sobre o fundamento do ato resoluto de seres finitos que apostam a sua própria vida nas suas palavras. Algoritmos que transmitem sons e signos com proficiência técnica não podem construir esta casa. Sem o fundamento existencial da mortalidade e da angústia, a linguagem artificial é uma estrutura oca, destinada a ruir sob o peso da sua própria vacuidade.
O risco da imitação coletiva
A conjugação das perspetivas de Foucault e Heidegger revela um cenário preocupante. A linguagem da IA é um discurso comprimido, baseado apenas em texto, que carece da dimensão emocional, subjetiva e corpórea essencial para o significado genuíno. Ela processa padrões, mas não possui a "simpatia" foucaultiana nem a "resolução" heideggeriana.
O perigo não reside na possibilidade de a IA se tornar consciente ou dominar a humanidade num cenário de ficção científica. O perigo real é mais subtil e insidioso. Reside na possibilidade de os humanos se tornarem tão imersos em formas artificiais de linguagem que percam a noção do que torna o discurso autêntico insubstituível.
Ao delegarmos a escrita de emails, a criação de conteúdos e até a reflexão pessoal a assistentes virtuais, habituamo-nos a uma linguagem plana, segura e estatisticamente média. Perdemos a prática de enfrentar a angústia do página em branco, que é muitas vezes o prelúdio para o pensamento original. Perdemos a necessidade de dobrar a linguagem para acomodar a nossa subjectividade única.
Se aceitarmos a resposta da IA como suficiente, abandonamos o esforço de procurar a verdade nas entrelinhas da nossa própria experiência. Tornamo-nos transmissores passivos de uma cultura reciclada, onde a novidade é apenas uma recombinação do velho. A verdadeira tragédia não é a máquina pensar como humano. É o humano deixar de pensar como humano, contentando-se com a ecoagem infinita dos seus próprios dados passados.
Conclusão
A análise filosófica apresentada por Bun-Sun Kim e Hongjoon Jo serve como um alerta necessário numa época de fascínio tecnológico. As limitações da inteligência artificial não são falhas de engenharia que possam ser corrigidas com mais poder de computação ou mais dados. São limitações ontológicas. A verdade, na sua essência mais profunda, requer um sujeito que exista, que sofra, que tema a morte e que se importe com o significado das suas próprias palavras.
A IA não tem corpo. Não tem ansiedade. Não tem um mundo a revelar. Por isso, não pode dizer a verdade. Pode apenas simular a forma da verdade, criando textos que parecem corretos mas que estão vazios de compromisso existencial.
Cabe-nos, enquanto utilizadores destas tecnologias, manter uma distância crítica. Devemos reconhecer o valor utilitário da IA para tarefas de processamento de informação, mas recusar a sua autoridade em domínios que exigem autenticidade, ética e criatividade genuína. Precisamos de preservar espaços de linguagem natural, onde o erro, a hesitação e a emoção sejam permitidos, pois é aí que a verdade humana reside.
Não devemos permitir que a conveniência da resposta imediata substitua a dificuldade fértil do pensamento próprio. A linguagem continua a ser a nossa casa. E essa casa só se mantém de pé se continuarmos a habitá-la com a nossa presença inteira, finita e corajosa.
Foto: Freepik, Curadoria: Gerueb, Autoria do Texto Original: Bun-Sun Kim e Hongjoon Jo, Data de Publicação Original: 9 de junho de 2026
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